
Todavia, o que se vê no livro de Fernando Morais (um dos escritores e jornalistas de maior renome no Brasil) é um lado de Chatô que passa longe de toda imponência nobre que o título da obra poderia sugerir apresentar, e o que acaba sendo mostrado claramente em todo o livro são os meandros e subterfúgios, quase sempre sem ética alguma utilizada por esse paraibano de Umbuzeiro. Chatô teve papel importantíssimo na história, não só da comunicação como mesmo a de nosso país e pela sua biografia pode-se ter um parâmetro dessa importância.
O livro inicia-se com um delírio de chatô, o que era uma exigência dele mesmo para a autorização de sua biografia. Tal delírio aconteceu quando lhe ocorreu o problema de trombose, que acabou o limitando de muitas funções após isto e o traumatizando. Logo após este inicio obrigatório, o autor retrocede no tempo e mostra sua infância em Pernambuco, mostrando na sua infância um lado humano e até cômico de Chatô: Relatando sobre seu problema de gagueira, o que o perseguiu por grande fase dessa vida.
A parte da infância é relatada rapidamente e logo o livro começa a mostrar um lado polêmico de Assis Chateaubriand. A partir desta parte da biografia, Morais descreve um homem que não perdia a oportunidade de entrar em uma briga, se soubesse que sairia com algum benefício dela. Sua notoriedade nacional é alcançada graças a uma disputa judicial ferrenha em um concurso da faculdade de direito de Pernambuco, o que força nosso “herói” a ir para o Rio de Janeiro buscar apoio político, onde conquista muitas amizades poderosas.
“Amigos” e inimigos foi o que Chatô mais colecionou em toda a sua vida, além das mulheres, é claro. Sempre que necessitava de apoio financeiro, ele recorria a “colaboradores” que, talvez por medo de ter um novo inimigo poderoso, quase em todas as oportunidades o ajudavam. Dessa forma que ele adquiriu o seu primeiro jornal nos Diários associados e mais tarde um dos maiores de seus legados remanescentes até hoje, o museu do MASP. No livro sempre foi deixado bem claro que “o rei do Brasil” sempre tinha o domínio nessas relações de “amizade”.
Quanto aos inimigos, também foram inúmeros, Arthur Bernardes, no qual Chatô fez ferrenha oposição; Oscar Flues, que fora literalmente castrado por Amâncio( figura muito citada na obra, era capanga de Chateaubriand); Corita e Clito Bockel, ex-mulher e o amante dela, que tiveram grandes disputas jurídicas pela posse da filha do casal, que acabou até em tiros e uma em resolução polêmica que causou inclusive mudança na constituição do país, apenas para satisfazer o ego do poderoso Chatô.
O livro também dá destaque ao lado mulherengo de Chatô. Segundo a obra, as mulheres sempre foram presença marcante na vida de Chatô, apesar de sua feiúra descrita no livro e de depois da trombose ficar incapacitado de manter relações sexuais normalmente. Durante toda a sua vida, ele teve 2 esposas e muitas namoradas, sem contar as moças no qual ele ia apenas “furunfar” (gíria criada por ele mesmo). O que ele não tinha era uma boa relação familiar, Chatô sempre foi um péssimo marido e um pai ausente.
Grande parte da evolução da mídia se deve a esse barão das comunicações, comparado ao cidadão Kane (ou talvez a Al Capone); A revista “O cruzeiro” trouxe muitas evoluções gráficas e de impressão ao Brasil; Sem falar da TV Tupi, que foi a primeira emissora e um marco na comunicação do Brasil. Chatô ainda seguiu a carreira política (com muitas manobras sujas) sendo senador e embaixador, até ter o problema de trombose que o deixou limitado em seus últimos anos de vida, mas não o impediu de continuar controlando seu império até a sua morte.
O livro de Fernando Morais apresenta diversas ações positivas, todavia também apresenta falhas, algo comum para uma biografia tão extensa. O livro apresenta destaque talvez exagerado aos defeitos de Chatô, para quem lê o livro fica a impressão de que ele era um homem muito irritável, falso, mulherengo, preconceituoso e não tinha apego nenhum à família; Além disso, se mostra um jornalista sem ética alguma, que, apesar de empreendedor, nunca investia seu próprio dinheiro nas suas idéias, o que deixa no ar se ele tinha tantos defeitos e tão poucas qualidades.
Outra pequena falha se deve a evolução da narração, pois se dá um grande detalhismo no começo da história e do meio para frente ela passa a impressão de ficar extremamente corrida, como se houvesse uma ânsia de acabar o livro e não “estourar” certo número de páginas. Falhas a parte, Chatô: o rei do Brasil é um livro interessante e indispensável para quem quer saber em pouco mais da história da comunicação do Brasil e para quem quer saber como se vivia na primeira metade do século XX no nosso país, tudo sob a ótica de um rei, o rei do Brasil.
Um comentário:
Parabéns pela resenha, cara. O que mais me chamou a atenção quando li o livro foi a parte da implantação da TV no Brasil - que foi feita, praticamente, nas coxas. O Chatô foi muito empreendedor, isso é um mérito dele que não podemos deixar de lado.
Abraço
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